segunda-feira, 7 de Setembro de 2009


EXPOSIÇÃO O VERMELHO - «O TANGO»


Miguel Baganha, acrílico s/ tela | 2009
81x64 cm- série: Fragmentos do Visível II

MEMÓRIA BREVE
DE UM TANGO PERDIDO


A esquina, o canto, o ângulo recto de um chão enviesado, o vermelho e o negro, como em Stendhal, pena de ferro fino crispada sobre o papel poroso, todo o ruído num só fio rasurado mas inteiro - e a dança procurada dos dedos invisíveis, apenas o aparo em jeito de lança antiga, preto, branco e vermelho, memória breve de um tango perdido, aqui encoberto pelos fragmentos minimalistas das suas cores emblemáticas, românticas, a prumo ou na horizontal, a escrita cursiva, itálica, bordando alguns limites escuros, lisos ou texturados, e ainda os panos dos teatrinhos de zarzuela, flamengo em Granada, as praças de Buenos Aires, desertas sob a bota militar, gente perdida e assassinada, corpos cinzentos atirados para as valas comuns que só há pouco as mães dilaceradas descobriram, impossibilitadas de encontrar nas fardas e nos ossos, o rosto forte dos seus filhos. Praças amplas como as de Chirico, atravessadas de sombras negras, oblíquas, ameaça visual que uma menina, inocente, não conhece, fazendo rolar o arco sob os contrastes da luz branca, solar, e a sombra côncava debaixo das arcadas, como acontece na Lua que já sabemos como é, nem plácida nem escura: os poetas cantavam-na, em tabernas e espaços nocturnos, ouvindo os sapatos das mulheres, vendo as suas blusas vermelhas, os seus folhos negros, uma coxa avançando, branca, e logo se escondendo, enquanto as botas dos homens, pretas e luzidias, traçavam o espaço e assentavam no chão, num rodopio do sonho ou do desejo, e em tudo isso, afinal, uma geometria secreta como a que se expõe e se oculta nestes planos negros, nestas faixas vermelhas, no brilho branco das camisas, equilíbrio trenário que submeteu o nosso olhar à vertigem das curvas, à doce violência de um enlace pela dinâmica, corpos em contra-luz, negro partilhado com o vermelho, branco com o apagamento do gesto petrificado. Também nestas telas o mundo se petrifica, as medianas e as diagonais sugerem a ordem pelo absoluto, são igualmente absurdas na inutilidade do seu espectáculo mínimo, só elas fingindo uma rasura textural em certas arestas, o espaço do silêncio entretanto, a completa imobilidade, o completo esquecimento das grandes bandeiras totalitárias.

Se
Chirico ressuscitasse e viesse visitar estes espaços, na dureza do quase nada, haveria de desenhar uma menina que ele criou e ali costuma passar, o aro de metal barulhando devagar no empedrado de outrora.

Rocha de Sousa
_______________________

EXPOSIÇÃO TEMÁTICA DE PINTUR
A,
DESENHO, GRÁFICA ORIGINAL E OBJECTOS















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INAUGURAÇÃO: DIA 17 DE SETEMBRO ÀS 19:30
NA GALERIA PROVA DE ARTISTA

Artistas participantes:

Pilar Garcia
Abril, Miguel Baganha
, Joaquín Capa, Ming Yi Chou, José Manuel Círia, Manuela Cristóvão, Francisco Ferreras, Teresa Herrador, Saskia Moro, Lucy Pereira, Mário Rita, Daniela Rocha, Maria Luisa Sanz

TERÁ LUGAR UM ESPECTÁCULO DE TANGO ÀS 20:30h
DOS PRINCÍPIOS DO SÉCULO XX AOS ANOS 30:


Milonga
“Negra Maria” por Manuel Meanos e Lucio Demare

(Intérprete: Mercedes Simone)

Tango – “Felícia” por Carlos Pacheco e Enrique Saborido

(Intérprete: Trio Gonzalito)

Milonga – “El Porteñito” por Manuel Meanos e Angel Villoldo

(Intérprete: Carlos Garcia))

Canyengue – “Zorro Gris” por R. Tuegols e F. Garcia Jiménez

Tango Canção – “El dia que me quieras” por Enrique Ugarte

(Intérprete ao vivo: Vera Neves

DOS ANOS 40 ATÉ AOS NOSSOS DIAS:

Valsa Criolla – “La Tapera” por Edgardo Donato

Tango – “Millongueando en el 40por Aníbal Troilo

Tango Canção – “Balada para un loco” por Astor Piazzolla

(Intérprete ao vivo: Vera Neves)

Tango – “Orgullo Criollo” por Astor Piazzolla

Direccção e Coreografia: Miriam Nieli

Intérprete Vocal: Vera Neves

Dançarinos: Adriana Fernandes, Carlos Silva; Dalila Romão, Hugo Messias; Maria Elisabete Rosa, Vítor Conde; Maria Manuela Azevedo, Francisco Lebre; Noémia Liebaut, António Santos; Tatiana Ecetova, João Sabino.


PROVA DE ARTISTA
Rua Tomás Ribeiro, 115 - Loja 1
1050 - 228 Lisboa
Telef.: 21 319 95 51
Móvel: 91 788 59 91
e-mail: provartista@gmail.com
Segunda a Sexta: 10:30 - 20:00
Sábado:15:00 - 20:00

quinta-feira, 4 de Junho de 2009


ARQUITECTURA ORGÂNICA











( Taliesin West )


«
A Arquitectura Orgânica busca um sentido sup
erior de utilidade e um refinado sentido de conforto, expressos em simplicidade orgânica

FRANK LLOYD WRIGHT

é um dos mais importantes arquitectos do século XX.
Nasceu em Richland Center, Wisconsin a 8 de Junho de 1867.
Com a tenra idade de 12 anos, os pais de Wright mudaram-se para Madison, onde frequentou o Liceu. Foi na quinta de seus tios em Spring Green, durante umas férias de Verão que Wright realizou o sonho de se tornar arquitecto. Em 1885, deixou Madison sem completar o liceu e começou a trabalhar com o chefe do departamento de Engenharia da Universidade de Wisconsin, passando dois semestres a estudar engenharia civil. Em 1887 muda-se para a cidade de Chicago.
E é nesse período que começa a dar os primeiros passos como arquitecto, colaborando com o arquitecto Joseph Lyman Silsbee. Wright desenhou então, a construção do seu primeiro edifício, a capela de família Lloyd-Jones também conhecida por Unity Chapel.
Um ano depois, ingressou na firma Adler & Sullivan, adoptando o lema do director Louis Sullivan, A Forma segue a função. Sullivan acreditava que a arquitectura Americana deveria fundamentar-se na função Americana e não nas tradições Europeias, uma teoria que Wright viria a desenvolver no futuro. Sullivan foi indubitavelmente a sua primeira grande referência, influenciando fortemente a sua carreira. Entretanto, Wright conhece e apaixona-se por Catherine Tobin, que se tornaria a mãe dos seus cinco filhos. Em 1893, Wright separa-se do seu mentor, Sullivan, e abre a sua firma em Chicago. Cinco anos depois transfere o gabinete para a sua própria casa, em Oak Park. ( Oak Park Studio )

As primeiras
casas construídas por este jovem e promissor arquitecto tinham um estilo muito próprio, usando um plano horizontal sem caves ou sotãos. Modelo que serviu de inspiração aos
Prairie School, um nome dado a um grupo de arquitectos cujo estilo assentava na cultura indígena. Mais tarde, Wright tornou-se um dos seus mentores. Algumas das suas criações que melhor referenciam
esse período são a
Robie House em Chicago, Illinois e a Martin House em Buffalo, Nova Iorque.


Em 1909, depois de ter permanecido 18 anos em Oak Park, Wright deixou a sua casa e vai para a Alemanha com uma mulher chamada Mamah Borthwick Cheney. Regressam em 1911 para Spring Green e a sua mãe oferece-lhe um terreno de família, uma quinta onde ele passou parte da sua juventude e onde viria a construir Taliesin. Aí viveram até 1914, uma data inesquecível para Wright, marcada pela tragédia. Um empregado louco assassinou Cheney e mais seis pessoas, incendiando o estúdio de Taliesin em seguida. Previa-se que este terrível episódio acabasse por destruir a sua carreira mas contrariamente às expectativas, Wright reagiu com a decisão de reconstruir Taliesin. ( Taliesin I )

A obra de Wright, foi crescen
do ao longo de 20 anos e o reconhecimento pelas suas construções inovadoras foi-se consolidando nos Estados Unidos e Europa.
Em 1915, ganhou o concurso para o projecto do
Tokyo Imperial Hotel. É por esta altura que Wright começa a desenvolver as suas filosofias arquitecturais e sociológicas. Por Wright antipatizar com o atmosfera urbana, os seus edifícios tinham um estilo muito diferente dos outros arquitectos da época. A utilização de materiais naturais, claraboias e paredes repletas de janelas, possibilitava um contacto mais próximo com o meio ambiente. Foi também pioneiro na construção de arranha-céus. Edifícios altíssimos, imitando àrvores, onde um fuste central dava origem a outras divisões, ramificando-se e projectando-se para o exterior. Ele defendia que as formas encontradas na natureza não só deveriam fazer parte dos edifícios, mas acima de tudo, tornar-se a base da arquitectura americana. O edifício Larkin Administration em Buffalo, Nova Iorque (1903) e o museu Guggenheim em Nova Iorque (1943), são belíssimos exemplos desta teoria, este último revelando semelhanças com uma concha ou caracol.









Em 1932, Wright, usou o Taliesin para fundar uma escola de arquitectos (The Frank Lloyd Wright Foundation), onde jovens arquitectos podiam pagar para aprender e trabalhar com ele. De ínicio, cerca de 30 aprendizes foram viver com ele em Taliesin.







Através desta Fundação, Wright criou obras grandiosas, tal como a célebre, Fallingwater. Neste período, casou-se e separou-se de
Miriam Noel e conheceu
a sua terceira mulher, Olivanna Milanoff. Os dois viveram cinco anos em


Taliesin onde criaram um filho, mas à medida
que o casal ia envelhecendo, os duros Invernos do Wisconsin começaram a tornar-se insuportáveis, obrigando-os a mudar para ares mais quentes.









( Taliesin West )

Decorria o ano de 1937, quando Wright mudou a sua família e a associação de arquitectos para Phoenix, no Arizona e aí construiu uma sede do Taliesin, o Taliesin West, onde passou os últimos vinte anos da sua vida.
O confortável clima do Oeste,
proporcionou a Wright a possibilidade de integrar os espaços
exteriores com os interiores, levando-o a desenh
ar telhados altos e inclinados, tectos transparentes e grandes portas e janelas, separando subtilmente a casa do meio ambiente.

O Taliesin e o Taliesin Oeste, estiveram permanentemente sob construção, exigindo muito de Wright. Devido ao crescimento do número de associados, era imperativo o aumento das instalações, criando divisões e expandindo os espaços.












A 9 de Abril de 1959 e com 92 anos de idade, Frank Lloyd Wright, morreu em sua casa, em Phoenix (Arizona). Pela altura da sua morte, ele já era mundialmente conhecido pelo seu estilo de construção inovador e design contemporâneo.

Certa vez, Lloyd, terá dito:

«Cada edifício tem de responder à Natureza, e todos os edifícios têm de ter a sua própria Natureza.»







DVICE

Lake House

Obra e vida-slideshow

Obras de Frank Lloyd Wright



Ao longo da sua vida,
criou 1,141 projectos, dos quais 532 foram realizados. O seu nome ficará para sempre associado a um design grandioso, não tanto pela forma dos seus projectos, mas sobretudo pela sua funcionalidade. No final, Wright demonstrou, que o urbanismo pode coabitar com a Natureza sem a destruir.

Miguel Baganha


Nota especial:
Daniela, minha querida, este post, dedico-o a teu pai.
Ele esteve sempre presente na minha memória ao longo desta edição. Estou certo de que nunca será esquecido pelos seus, além de saber que ficará, também para sempre, no coração do povo moçambicano, perpetuado através dos projectos realizados naquele país, muitos dos quais trabalhando Pro Buono.

Onde quer que estejas, um grande bem-haja, José Manuel Rocha de Sousa!

segunda-feira, 11 de Maio de 2009


O AZUL


EXPOSIÇÃO COLECTIVA DE PINTURA
E GRÁFICA ORIGINAL















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INAUGURAÇÃO: dia 15 de Maio às 19:00
NA GALERIA PROVA DE ARTISTA

PROVA DE ARTISTA


Rua Tomás Ribeiro, 115 - Loja 1
1050 - 228 Lisboa
Telef.: 21 319 95 51
Móvel: 91 788 59 91
e-mail: provartista@gmail.com
Segunda a Sexta: 10:30 - 20:00
Sábado:15:00 - 20:00

sexta-feira, 27 de Março de 2009


UMA OUTRA REALIDADE














Julien Levy, influente marchand e colecionador de arte do séc. XX, ao editar um livro intitulado O Surrealismo, previu o movimento neo-surrealista emergente do movimento Pop Art neo-Dada de 60. Até certo ponto, a sua profecia tornou-se realidade, mais concretamente naquilo que refere à fotografia. Neste campo, a influência dos surrealistas pode ser vista no que concerne aos enigmas do espaço e luz, fantasmagoria, sonhos metafóricos e conceitos.
Para André Breton, lider filosófico do movimento de 1930, a ambiguidade era de suprema importância, evocando objectos, identidades e situações indefinidas, choque e absurdo. Dentro deste novo conceito inúmeros artistas foram nascendo, nas mais variadas expressões e técnicas, nomeadamente na fotografia.
O número de praticantes desta última, aumentou incrivelmente desde a sua invenção, mas muito poucos conseguiram atingir reconhecimento mundial.

RALPH GIBSON
é um desses raros casos.











Nascido em 1939 na cidade de Los Angeles e filho de um empregado da Warner Brothers, Gibson aprendeu fotografia na adolescência durante o seu recrutamento na marinha. Em seguida mudou-se para San Francisco onde estudou por um breve período no Instituto de Arte de San Francisco e trabalhou como assistente de Dorothea Lange. Em 1963 regressa a L.A. e começa a trabalhar como fotógrafo freelance. Em 1966 vai para Nova Iorque e torna-se assistente de Robert Frank no filme Me and My Brother. As suas fotografias nesta fase eram no género documental, nitidamente influenciadas por Frank, Henri Cartier-Bresson e William Klein. É neste período que ele produz o seu primeiro trabalho The Strip em formato de livro, mas só com o The Somnambulist em 1970, também neste formato e publicado pela sua Lustrum Press, Gibson conseguiu alcançar a fama. Esta obra sugere a utopia dos sonhos numa surrealidade concebida por meio de cortes e justaposição de imagens, sombras, reflexos e grão.












Esta tendência trouxe-lhe fama, fortalecendo o seu compromisso com o estilo de livro fotográfico e adquirindo assim a possibilidade de viajar. Imagens eróticas, combinando o sentido intimista com um ousado toque de incongruência ( Days at Sea 1974 ) foram sempre uma referência, sempre mantendo Gibson numa perspectiva muito própria.
Ralph Gibson, fez uma trilogia dos seus livros sequenciais entre 1970 e 1974, que sugerem estados de espírito na tradição surrealista.

As suas imagens são sensuais e misteriosas, situadas numa realidade onírica mas quase sempre paralela com a mundana. Na introdução para o The Somnambulist, ele escreveu: « Durante o sono, o sonhador aparece num qualquer ponto do planeta, tornando-se pelo menos em dois homens. Os seus sonhos enquanto dorme providenciam a substância dessa realidade, enquanto os seus sonhos acordado se tornam naquilo que ele imaginou para a sua vida... Chamado por si próprio, esse outro homem (O que Dorme) para que regresse a um vasto mundo de luz e pleno de verdade, ao que ele aceita sem hesitação... Claridade é tudo o que qualquer homem busca, e este Sonambulista simplesmente encontra a sua no Outro Lado. »
Estas ideias, indubitavelmente descansam sobre o mote surrealista de Breton para descobrir « o mais real do que o mundo real por trás do real. » Gibson coloca o sonhador em dois mundos de sonho; o mundo do sonho acordado da realidade consciente e o outro mundo do sonho inconsciente. Ele torna-se numa dualidade, dividido mas inclinando-se sobre o simbólico mundo da sua cama, onde uma interior claridade pode ser encontrada. É com efeito, a introspecção psicológica que os surrealistas re-definem sob a influência de Freud. O seu objectivo era unir finalmente a realidade do sonho com a realidade acordada, de forma a que um todo ou uma só realidade pudesse ser mantida. É notório que os métodos e técnicas surrealistas foram adoptados por Ralph Gibson.
Podemos comparar a sua fotografia à escrita automática, onde simbolos ambíguos e uma tensão entre a moldura e a sequência servem para desorientar o público, elevando-o a um nível fora do alcance da visão programada do mundo. A metáfora, o fetiche e os objectos ambíguos empregados por si, são antigos mecanismos literários e visuais a que os surrealistas recorrem para sugerir os mistérios do inconsciente. A parábola, a alegoria e a fábula estão também entre eles.

Embora as fotografias de Gibson acumulem metáforas à realidade do sonho, individualmente, muitas são fetiches Dadaístas. Contudo, é apenas um fragmento, pois o fetiche é um objecto de reverência com poderes mágicos que representa mais do que o todo do qual é uma parte. « Menos é mais » é a filosofia de Gibson e isso é visível no conteúdo minimalista das suas imagens. A lógica desta filosofia ganhou maior expressão com Quadrants, uma série que criou uma noção mais exacta do poder de espaço e escala na fotografia. Um botão no estômago de uma mulher obesa, um fato que veste um manequim sem cabeça diante de uma montra, a parte de trás do pescoço de um homem, um pedaço de uma parede de cimento projectada no espaço, parte de um rosto dissecado pela sombra, uma mão ou a margem da fotografia, ela própria desorientada, repelida, que dirige a atenção do espectador para o poder extra-sensorial da redução.













Este renomado fotógrafo, que já conta 40 anos de carreira, continua ainda hoje a fascinar-se com detalhes e texturas de corpos e objectos, trabalhando com alguma frequência os close-up.











Após uma breve para pausa, Gibson regressou em 2008 e brindou os seus admiradores e amantes da fotografia em geral com uma colecção de nús, revelando com a sua peculiar perspectiva que o p&b será sempre uma expressão contemporânea.

Miguel Baganha

quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009


ANOS 90,

A DÉCADA DO PÓS-MODERNO

Parte III - última parte













( Ghos
t - Rachel Whiteread, 1990 )

Na sequência do que já foi falado até aqui, a tradição do conceito minimalista também foi refrescada pela lufada do ar fresco que se respirava nos anos 90, dando lugar a uma nova tendência. Um dos responsáveis e defensores desta nova tendência, é indubitavelmente, Rachel Whiteread, que conquistou reconhecimento mundial em 1993 com " House ", sendo a primeira mulher a vencer o " Turner Prize " nesse mesmo ano. Este apreensivo lado da tendência do novo minimalismo da arte de 90, coloca-se de parte dos análogos anos 60, centrando os seus princípios primariamente nas formas puras e nas cores primárias. Estávamos em 1996, quando Whiteread avançou com o projecto arrojado para a construção de um memorial em Viena, dedicado aos austríacos que foram vítimas do regime nazi. A ideia de Whiteread, -somente aprovada em 2000- consistia num bloco colossal ( abaixo, à direita ) de granito, sendo as suas faces esculpidas com a forma de milhares de lombadas de livros. Uma óbvia referência aos livros que foram queimados sob as ordens do ditador fascista Adolph Hitler. O
memorial de Whiteread é assim como o fantasma de uma biblioteca ou a sombra duma tradição. À semelhança de todos os seus trabalhos, " House " e o seu Holocaust Monument, são simples moldes de espaços negativos de objectos ou divisões -normalmente banais-, que depois se transformam em entidades palpáveis. Nas palavras de Whiteread: " elas são a impressão a negativo, -relíquias ou resíduos- daquilo que foram outrora, exibindo nas superfícies, vestígios legíveis da sua significação... são ambas, fantasmas fossilizados e exemplos físicos de um ossificado espaço negativo. "
















Rachel Whiteread - Embankment

Tal ambiguidade, caracteriza a mentalidade desse fim de século, fazendo referências à história da arte, bem como a temas de ordem política e social. Na generalidade dos casos, as declarações dos artistas podem ser interpretadas em vários níveis, sendo difícil de determinar que posição está a ser tomada. Será que Gregory Green apoia ou denuncia o terrorismo com as suas " malas-bomba "?, Jake & Dinos Chapman criticam ou contribuem para o abuso de menores?... os monstruosos animais híbridos de Thomas Grünfeld condenam a manipulação genética?, e qual será o tipo de relacionamento entre Richard Billingham e a sua família ? Estas e outras questões similares levantadas pela arte, foram, são, e sempre serão questões dificeis; senão mesmo: impossíveis de responder. A experiência de presenciar alguns destes trabalhos pela primeira vez, pode ser chocante, porém logo é superada, induzindo o espectador a reconsiderar as existentes ideias e conceitos.











Á semelhança de Egon Schiele, Franz von Stuck e Edvard Munch e muitos outros artistas da viragem do séc.XIX, os artistas do final do séc. XX desafiaram os espectadores e quebraram tabus, de forma a incandescer a provocação na melhor acepção da palavra.









Assim é tudo: provocar a sociedade, levando-a a ponderar e reflectir sobre o seu próprio estado de existência.

Miguel Baganha

segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009


ANOS 90,
A DÉCADA DO PÓS MODERNO


Parte II












( Your Manias Become Science-

- Barbara Kruger, 1997 )

Na deriva da liberdade de expressão, a arte vanguardista começava a explodir em manifestações espantosas. E por falar em explodir, é apropriado referir um dos artistas mais " explosivos " da vanguarda de 90. Gregory Green tornou-se conhecido pelas bombas manuais que fabrica. Os seus engenhos, exceptuando o facto de não incluirem explosivos verdadeiros, são completamente funcionais. Green, como a maior parte dos contemporâneos, procura apresentar um novo tipo de realismo: " ao exibir as minhas bombas numa galeria, eu confronto o facto delas poderem explodir: a obra implica uma ameaça para o visitante e para a instituição... o que está em jogo é o fascínio colectivo para a violência... por outras palavras, só estou a tentar expor essa tendência que é tão natural no ser-humano. "
Do outro lado da moeda, está o jovem artista cubano Kcho ( Alexis Levya ), cujo centro das suas criações se baseiam em barcos. Kcho, usa materiais invulgares na elaboração destas instalações ou " assemblages ", tais como; fragmentos de madeira, objectos diversos e todo o tipo de desperdícios que encontra ao longo da costa cubana.
Restos mortais de inúmeras tentativas fracassadas, que centenas de cubanos fizeram para escapar à tortura e privação que Fidel Castro provocou até há bem pouco tempo.


( Jake e Dino Chapman- Disasters Of War )

Numa temática diferente, encontram-se os irmãos Chapman. Estes dois irmãos, notabilizaram-se por retratarem nas suas esculturas, crianças com mutações sexuais. Jake e Dino, criaram um largo número de obras relacionadas com as famosas series " The Disasters of War " de Goya. A exposição The Chapmans- " Great Deeds Against The Dead " ( 1994 ), apresentou três soldados castrados e mutilados amarrados a uma árvore:por um lado, uma homenagem a Goya, por outro, um eventual apelo aos responsáveis pelas mutações das crianças inocentes, que vivem no nosso jardim das " Trágicas Anatomias ".
Mutilações, também fazem parte do trabalho de Paul Finnegan. As suas bizarras esculturas , são na realidade transmogrificações de formas humanas, levadas quase ao extremo do sobrenatural. Se as obras dos irmãos Chapman recaem sobre o pesadelo da manipulação genética, então as esculturas e fotografias de Finnegan denunciam o negligente abuso de drogas alucinatórias.
Mutações, também desempenham o papel principal nas criações do artista alemão Thomas Grunfeld. As suas " Misfits ", são criaturas híbridas que mais parecem saídas dum louco laboratório zoológico frankensteiniano. As macabras formas e a perfeição das montagens, contudo, não sugerem um taxidermista que enlouqueceu, ao invés, é uma chamada de atenção para a manipulação genética ou melhoramentos evolutivos inconcebíveis e inconsequentes.
O fascínio de Kiki Smith pela biologia, assenta, por outro lado, numa base completamente distinta da de Finnegan. As esculturas, instalações e desenhos desta artista alemã, são mais relacionados com a natureza, reflectindo a sua própria introspectiva na demanda duma identidade a nível socio-biológico. Em último caso, o trabalho de Kiki Smith, é acima de tudo sobre a experiência de sermos humanos, numa época em que a natureza está cada vez mais longe do natural: " eu não penso que o meu trabalho seja particularmente sobre arte. É na verdade, sobre mim... sobre eu estar aqui... aqui nesta vida, aqui nesta pele. Sinto que estou a canibalizar a minha própria experiência, aquilo que me rodeia... para mim, não há diferença entre viver e fazer o meu trabalho - não existe separação... eu penso que escolho o corpo como
tema, não duma maneira consciente, mas porque é uma forma que todos nós partilhamos; é algo com o qual todos têm a sua própria e autêntica experiência. "














( Barbara Kruger )















( Jenny Holzer )


Identidade, é também o tema central da obra de Cindy Sherman neste período. Mas aqui, a investigação do seu Ser baseava-se mais no campo político. Tal como Barbara Kruger e Jenny Holzer, Sherman deu uma nova interpretação ao feminismo como sendo um conflito, não directamente entre homem e mulher, mas, mais como entre os poderosos e os não-poderosos. Neste contexto, ela foi ao encontro do mesmo tipo de universalidade que abrange a obra de Kiki Smith, os retratos genéricos de Thomas Ruff, as esculturas em madeira de Stephan Balkenhol, e ainda os retratos de família de Richard Billingham.






























Este último, permite aos espectadores ter uma visão vouyerista, por detrás do cenário quotidianico da sua problemática família, com o seu pai alcoólico, a mãe fumadora compulsiva e o seu perturbado irmão mais novo. A visão que temos, é efectivamente muito desconcertante e cheia de contradições. Em todo o caso, estas fotos estão longe de serem simplesmente um aspecto complementar da sua família, levando o espectador a pensar na sua própria vida doméstica, ao mesmo tempo que considera o tipo de relação que o artista terá com a sua família, ao ponto de lhe permitir tão revelador documentário fotográfico. Estes complexos retratos, são também sintomáticos da nova arte de 90, no qual o julgamento e a moralidade desempenham um papel secundário.

Tal como os " Nouveaux Réalistes " do início dos anos 60, Billingham e muitos outros apresentaram-nos uma realidade em directo, representada em todas as suas várias facetas sem julgamentos ou comentários.

Miguel Baganha

sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009


ANOS 90,

A DÉCADA DO PÓS-MODERNO
Parte I












( Ninth November Night-
- Gottfried Helnwein-Berlim, 1996 )

A arte pós-moderna dos anos 90 foi caracterizada por uma mentalidade de fim de século, não muito diferente da que conviveu -especialmente na europa- com o nascimento do Modernismo durante a transição do séc. XIX para o séc. XX.
Pelas mãos de artistas como o alemão Franz von Stuck e do austríaco Egon Schiele, a arte destes anos conturbados entrou na zona do tabu sexual, encurtando perigosamente a distância que separava o erotismo da pornografia.
O sedutor retrato de Eva e a serpente da autoria de Von Stuck, apropriadamente intitulado " The Sin " (1893) e o revelador auto-retrato de Schiele " Masturbating " (1911), ainda hoje continuam a chocar muitos espectadores.
Durante esta época, muitos outros artistas estavam em voga, como é o caso de Édouard Manet. O ano de 1863 mal tinha começado e Manet já tinha agitado a arte parisiense com as suas ( para a época ) escandalosas pinturas " Le Dèjeuner sur l' herbe" e "Olympia ". Uns anos mais tarde, um jovem chamado Pablo Picasso provocava um franzir de sobrancelha ao público com o seu infâme ( agora famoso ) retrato de um grupo de prostitutas nuas " Les Demoiselles d'Avignon " ( 1907 ). E na mesma linha, o " The Yellow Christ " de Paul Gauguin ( 1889 ), " Madonna " de Edvard Munch ( 1895-1902 ) e um pouco depois, Emil Nolde com " Dance Round the Golden Calf ", -uma pintura que satiriza um tema biblico- causava tumulto junto da Igreja, que se indignou declarando a pintura de Nolde como blasfema.














No decurso dos anos 90, os escândalos tornaram-se prática corrente e no topo da nova revolução sexual da arte contemporânea, estavam os artistas nova iorquinos Jeff Koons e Andres Serrano. Koons, através da escultura e de fotografias pornográficas de grande escala, retratava a si mesmo e à sua mulher, Cicciolina em várias posições e fases de sexo esplicito, mantendo a linha tradicional estabelecida por Schiele 80 anos antes. Koons desenvolvia temas indiscutivelmente indecentes, senão mesmo obscenos. A série " Made In Heaven " do início dos anos 90 falhou ao chocar os amantes de arte, da mesma forma que o seu predecessor tinha feito através da sua imagem auto-erótica. E se Koons pode ser comparado com Schiele, seguramente que Andres Serrano pode ser visto em vários aspectos, como um artista renascido de Franz Stuck. Assim como as imagens eróticas de von Stuck se baseavam na mitologia e contos biblicos, o " Piss Christ " e a " History of Sex " de Serrano reflectiam os seus contemporâneos ao mesmo tempo que se referiam aos tradicionais temas clássicos.
Contudo, esta obra polémica com que Serrano encerrou o segundo milénio, foi caracterizada como algo mais do que uma simples provocação sexual. É uma obra multidisciplinar; incidindo sobre a política da preocupação ambiental, explora os aspectos biológicos do corpo humano e também uma
investigação de identidade individual dentro do contexto duma sociedade pós-industrial.
















Temas desta ordem, passaram a ser significativos e comuns à nova avant-garde.

Mas uma abordagem sobre a arte deste período estaria incompleta se não fosse mencionado o nome de Damien Hirst, que despontou em 1988 para a nova arte contemporânea britânica, com a lendária exibição " Freeze ". A obra de Hirst é estereotipada no que concerne à arte dos anos 90, por levantar questões dificeis e complexas sobre a vida, morte e a existência humana em geral.











Hirst nunca exerceu uma postura moralista, ou apontou directamente o dedo a eventuais ofensas ou corrupções, preferindo explorar os paradoxos da vida numa sociedade pós-moderna, sempre com um sentido de humor e ironia próprios dum novo fim de século.

O seu trabalho mais controverso, um tubarão gigante-branco dentro de um tanque de formol " The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living ", refere questões filosóficas sobre a vida e morte, enquanto o trabalho em si, joga com o choque e provocação. Esta obra, permite ao espectador desfrutar da beleza do animal e do que o rodeia ( um fluído esverdeado e luminoso ), ao mesmo tempo que o atinge com o hipotético perigo do tubarão, envolvendo todas as fobias humanas que estão inerentes a estes animais assustadores. Os seus trabalhos com animais conservados em tanques de formol, bem como as vitrines de vidro repletas de carne crua e moscas, abordam também, temas existenciais, que reflectem a mortalidade do Homem e o ciclo de vida.

Miguel Baganha